28/01/2017

Insosso

As 6h30 toca o som estridente 
que desperta o autômato em pele de humano
Este levanta da cama 
com os olhos ainda grudados de remela 
e fuma um cigarro barato 
antes mesmo de escovar os dentes.

Rasga pedaços de pão francês do dia anterior
e os engole com leite pingado de café
 fazendo uma massa amarronzada surgir entre os dentes 
de uma boca que mastiga aberta.

Entra num enlatado poluente
ouve a orquestra urbana  
regida por motores e buzinas
 quando um acidente  de trânsito desorganiza
 a organização 
não-orgânica 
da selva de pedra

Bate ponto atrasado,
 assina relatórios sem ler,
 bebe café aguado 
demais

E humilha-se perante a voz esgarçada de um engravatado com terno italiano

17h, 
evita ir pra casa(pois lar não era)
 pois não quer enfrentar a solidão assim,
 tão meio sóbrio.

Vai beber borbulhas amargas 
em copos sujos
 e vê o mundo embaçado 
através do copo de chopp.
 No intervalo entre um copo e outro
 checa as redes sociais da ex
 buscando rosto que agora a da motivo para sorrir.

Para enevoar os pensamentos 
traga a toxidade do ultimo cigarro do maço
 e se dirige para casa.

Ao chegar, percebe que se esqueceu de pagar a luz.
Sem televisão, toma uma pílula para não se lembrar de sonhar

Sonhos doces são ilusões para quem vive apenas para ganhar salário.

07/01/2017

Verbo Haver no sentido de existir

Havia
o cheiro de tempero grudando na panela quente, de caldo borbulhando e de batatas assadas.
Havia
vapor inalado e suor maquiando o dorso
Havia
 o amarelo pincelando as paredes de luz e sombra
Haviam
 mosquitos que marcavam coceiras e mapas vermelhos nas coxas
Havia
  o som do vento, o barulho do guizo do brinquedo do gatinho da casa.
 Havia
um colchão velho e confortável abraçando a jovem de dedos tamborilantes e digitadores
Havia
 uma parede entre duas mulheres que se amavam e não conseguiam romper a corda que as amarrava, mesmo que esta estivesse apodrecida.
Havia
o ruído do ventilador a tapar os resmungos baixos porém raivosos
Havia
 uma zona abissal de erros exaustivamente mencionados
E haviam
 as palavras duras que as moldaram.

Há tempos a miopia dos olhos passou pra alma
Elas olhavam, mas não havia nada a ver.

22/10/2016

Crise

Ela perambula por ai 
com olhos manchados de insônia romantizada
Cheirando ao café que lhe piora a gastrite
Seu peito sendo um auditório                  abandonado 
que desesperadamente ecoa
                                   ecoa  a batida de seu ultimo espetáculo

Seus ossos fossilizam na cama 
enquanto as paredes  brancas  
(profanadas de
 frases a  lápis)
 são 
grades
 de uma prisão 
arquitetada 
que contestam  Sartre no que diz a 
                                                                   liberdade

Diz idealiza  a  utopia  
de um dia efetivar o que lhe foi tirado tão logo aprendeu a andar                  
                                                                                                          sozinha
O seu habitat é o limbo de uma espera
E esta  se torna mais l o n g a 
à medida que o dia da suposta liberdade se aproxima  
 e fala e fala e fala 
sem nada dizer num impulso nervoso  
que emudece 
e bota em cativeiro 
o que realmente sente

E o medo a afoga em oxigênio
Tendo o coração pesando molhado de água suja 
(como pano de chão)
Passa seus  dias  a  sentir o gosto forte de não ser boa pra nada
 (Exceto, 
é claro,
 em fazer mal para si mesma)

E se dorme demais aos fins de semana
É pelo único motivo de Morpheus ser o Thanatos reversível









21/09/2016

Onde  mora a estúpida morte?
No ultimo maço? Na ultima dose?
Na próxima esquina

Qual é a sensação de  apodrecer em vida?
Sentir os vermes roendo os ossos
E decompor-se em dores
Cujo remédio não pode pagar?

(o que pode pagar
É a cachaça
Que se não cura
Faz esquecer)

O corpo sacro lhe causou óbito
Começou na garganta, calando os sonhos.
Sonhos estes que afogou em noites em claro
Mas uma bebida quente não aqueceu seu corpo frio
Mas remédio nenhum calava a humilhação

A carne negra marcada não pelo chicote
Mas pela fome, pela doença, pela facada no bucho.
Que é o açoite, a herança de seus senhores
E de açúcar sua vida foi vazia
Diabetes social não permitia

Jaz  mais um sobrevivente
Ao pó voltou como diz a profecia.
E finalmente a terra prometida
Que tanto lutou ,que regou com suor
É a terra que o abraça quente
Como uma mãe (que nunca teve ) o abraçaria

O circo fúnebre de flores e padres
A maior piada é que sequer poderia ler a própria lápide
E a justiça ironica é que se finda na morte a desigualdade

Ao ter o mesmo fim que o rico que tudo lhe tirou


já era pó
muito antes do pó retornar.

18/09/2016

Alegria simplista, saudosista e dominical.

Domingo.

Acordei com raios de sol salpicados em meu rosto, que invadiram meu quarto pela fresta da janela que me esqueci de fechar ontem.

Por algum motivo fragmentos da infância dominaram minha memória, e uma projeção de filmes caseiros se passou nos meus olhos, ainda cansados e mal acostumados com a luz.

Uma nostalgia boba me fez esquecer o celular por uns segundos, ouvir conversas na sala, perceber que pássaros cantavam e o como pela primeira vez em semanas eu não estava exausta.

Uma explosão sensorial dominou meu corpo, e senti o gosto de acordar mais tarde, o cheiro de água que lava carros, a sensação de virar páginas de jornal até achar as tirinhas, o som de carne assando num churrasco, e todos esses detalhes bobos que a gente só da importância quanto cresce o bastante para o saudosismo caber no peito.

Isso me fez sorrir, e infelizmente esse ato havia se tornado raro. Passei anos de minha vida vivendo com domingos nublados. Ou era minha alma que estava cheia de nuvens de chuva? Ou eram minhas palavras que tinham gosto de ozônio?

E o resto do dia não foi dominado por tédio nem correria, por angustia nem por euforia.


Pela primeira vez em anos, não senti a ansiedade dominical de esperar pela segunda.


A alegria é tão simples que chega a ser boba...

12/09/2016

Cegos

Bebi teu abandono até turvar minha visão
(mesmo de óculos)
Eu dormi até os sonhos pararem de ter seu rosto impresso
Eu me dei ao mundo
(até que percebi que trocava carinhos vítreos)
Eu bebi da insanidade
(que tanto flerto)
Enquanto cogitava se uma nova marca
 v
 e
 r
 t
 i
 c
 a
 l 
no meu pulso esquerdo era necessária.
(não era).



                                                                                   Mas aí, de repente, você voltou, 
Renascendo assim o lírio morto do meu jardim. 

Me dizendo palavras doces e me fazendo acreditar que não havia mais ressentimentos.
 

 Você me amava, e isso bastava




Me perdoe se eu não acredito facilmente nas coisas.

09/09/2016

Dois beijinhos

Larissa estava em  mais uma festa, se servindo de outro corpo de um ponche forte demais, ouvindo a mesma playlist de hits da semana,  quando ele chegou acompanhado da namorada, a viu e sorriu.
“Fudeu” apareceu em neon na  sua telinha mental enquanto ele se aproximava.  Chacoalhou a cabeça para desembotar os olhos, as primeiras testemunhas de uma futura ressaca.
Ela, nascida e criada no Rio, dava dois beijinhos.  
Ele, paulistano, se reservava para um só, sem estalo.
Era óbvio que os costumes adquiridos desde a infância iam trai-la, e acidentalmente beijaria o canto da boca dele por mais tempo do que deveria, enquanto a namorada dele a encararia  como se quisesse transforma-la em uma estátua de pedra. Talvez ela quisesse mesmo.
 Envergonhada, fingiu que nada aconteceu  e igualmente ele  fingiu  que a relação havia se resumido a pequenas trocas de cumprimentos no corredor, e não o complexo compartilhamento de fluidos e gemidos que realmente fora. Ela ignorava os frames que sua mente teimava em passar, especialmente daquela vez em que num canto escuro de um condomínio, ela o surpreendeu se ajoelhando e abaixando o zíper dele...
Talvez seu “olá” tenha sido alto demais,  e sua saia comprida de menos, mas a namorada a olhava com cara de nojo. Parecia uma dessas meninas que, sabendo do vasto histórico do companheiro, ficam sempre em alertas, como um cão de caça de batom, esperando a próxima vadia que irá tirar seu príncipe delas.
Vadia, Larissa até aceitaria ser considerada. Mas conhecia demais o rapaz para atribuí-lo o título de “príncipe” sem dar uma risada de deboche.
O rapaz apresentou sua namorada, que tinha um nome tão comum que Larissa esqueceu dois segundos depois.  Com a boca ocupada demais pela fumaça do  cigarro que não tragava, a namoradinha não havia sequer lhe dado um “oi”. Ela estendeu o cigarro, oferecendo um trago, e Larissa se sentiu traidora dos pseudo cults (desses que acham que é preciso se matar pra saber escrever)  ao recusar, afirmando que havia parado.  O rapaz lhe deu um tapinha nas costas dizendo “isso ai, fumar faz mal” enquanto pegava o cigarro da namorada e dava um trago. Riram os três a vergonha do reencontro.
Dizem que quando nos deparamos com situações de risco, temos ou a reação de luta ou de fuga.  Larissa que nunca se  definiu como corajosa, resolveu se desvencilhar da sétima situação bizarra que tivera durante a semana. Buscava a forma menos constrangedora possível:
- Ah, eu vou ali no banheiro, bebi demais...
Obviamente, não atingiu o objetivo.
Correu para um banheiro vomitado e fedendo a maconha, onde tentava não pensar em todas as fodas homéricas que seu ex casinho e ela tiveram.
“Ele seguiu a vida, Larissa. E você ai, parada no tempo, buscando alguma coisa substancial e só tendo merda na sua vida. Lei da atração, Larissa. Semelhante atrai semelhante.”
O choro borrou levemente seu rímel. Respirando fundo, saiu do banheiro decidida a ser o que sempre fora: a divertida. A garota de one night stand. Aquela que todos adoram.
“E quem me ama?” perguntou pra si mesma, depois o segundo  shot de tequila.

Não sabia, Os humanos odeiam não saber. Larissa resolveu então ignorar o impulso questionador bebendo mais um shot.

07/09/2016

Am(d)or

Uma gaiola dourada guarda meu coração
Dourada, sim.
Mas ainda uma gaiola

Meu estúpido cupido comigo não usa flecha.
Meu cupido é americano com bomba atômica
É Israel e seus tanques de guerra
E eu sou palestino com pedras

Somos o lírio que renasceu no inverno
Somos a flor do bem-me-quer
Somos um circo com gêmeos siameses
A figura andrógena mergulhada em açúcar e pus.
Somos um carro indo rápido demais numa estrada esburacada
Somos a história de um museu destruído pela guerra


E o que eu sou? E o que você é?
Diluimos nossos egos em nome do amor
Mergulhamos de cabeça no rio Leto
E tomamos injeções regulares de insulina
Para manter o sonho
Para manter o desejo
Para manter o nós


Eu te amo junto. Mas eu sangro sozinha.

05/09/2016

Jardinagem

Yasmin resolveu aprender a amar.
Bateu no liquidificador todos os  conceitos prévios de amor
E tatuou com eles o nome do amado no seu coração.
Berrou, mais para se convencer do que ser ouvida, de que "eles verão o nosso amor"
(Justamente na hora em que tremia pelo inverno que se aproximava)

Assumiu então um rótulo
 E deu ao amor o sabor artificial de morango
O álcool manteve ardendo a chama que cremou seu corpo, levando assim a última evidência do homicídio de seu ego.
Diluiu-se no outro e originou assim uma figura andrógena e amorfa, contemporânea.
Não era mais Yasmin, era ele/ela, e sua apoteose eram os segundos emqueficavamgrudadinhos.

Agradeceu aos deuses (que não acreditava), o fato que o riso dele cabia certinho na sua boca. Apostou todo o dinheiro que tinha em sua conta ( R$-29,45) nas promessas que ele escreveu nas nuvens e leu na palma da mão.

Admirou o florescer primaveril de seu amor
 num jardim que outrora eram folhas secas...





Quando ele a abandonou, Yasmin riu um sorriso amarelo
Riu da hipérbole metafórica
           paradoxalmente irônica
que era o amor que julgava sentir.
Ela que acreditara na promessa do bem-me-quer
Ela que acreditara no significado do Amor perfeito.
Viu seu amor secar e murchar por falta de cuidado.


O atestado de óbito indicou suicídio, mas todos sabemos que ela já estava morta há muito tempo.

O inverno sempre leva primeiro as flores mais delicadas

27/08/2016

Escuridão

De madrugada acordei de um sonho e quis verbaliza-lo.
Ao meu lado, o vazio era explicitado em marcas deixadas no lençol.(era um prelúdio, mas eu não sabia)
 Virei para  o outro lado. Ela estava fumando seu cigarro e olhava a rua, se apoiando no peitoril da janela. 
Enquanto eu observava as curvas dela, cuja pele negra reluzia ao suave toque das luzes da rua, que entravam sorrateiras pelo nosso quarto de hotel, ela tragava seu cigarro, e observava as espirais que o vento formava da fumaça que soltava. Ela era a síntese de uma mulher bukowskiana e eu era a imagem escarrada de um beatnik fracassado.
Ela sentiu que estava sendo observada, e virou-se para mim. Os seios desnudos eram grandes, e costumavam se espalhar quando deitava como as ondas costumam fazer ao chegarem à areia.  Dos lábios já sem batom escapava o sorriso cínico da minha mais velha amiga. Porém, o que matava mesmo eram os olhos dela. A escuridão de fora invejava a negritude daquela íris.  Ela era o próprio abismo olhando de volta para ti. E era impossível parar de olhar.
“Sonhei com você” quebrei o silêncio.
Aproximou-se e sentou na beirada da cama, fazendo o colchão afundar levemente, cedendo ao seu peso. Olhou-me com curiosidade.
“O mundo estava escuro, e ninguém sabia qual caminho tomar, acidentes ocorriam por toda parte. Mas de repente, o sol surgiu, e era você, espalhando raios de luz pra todo mundo”.
Ela me perguntou o que eu achava que significava
“Acho que meu inconsciente percebeu a importância que você tem na minha vida, meu amor”. ’Respondi, enquanto tomava suas mãos nas minhas.
“Sabe, sei que não tenho muito a lhe oferecer”. “Mas eu estou buscando ser alguém na vida” beijei cada um de seus dedos  "e aqui está uma promessa”.

Eu tirei um anel que me custou cerca de 50 reais que eu não tinha. Uma representação da minha doação. Ela sabia que eu estava desempregado. O rosto de espanto dela acelerava meu coração. Ela não respondeu minha pergunta implícita, a não ser com uma ação explicita de se enfiar nos lençóis e recomeçar com muito mais fervor o que passamos a noite anterior fazendo. Dormimos abraçados, inebriados pelas sensações que a união dos corpos causava.

O azulado de um amanhecer temperava as paredes brancas do quarto, quando ela vestiu sua calcinha e subiu o zíper do vestido. 
Escreveu “desculpe” num guardanapo sujo, e colocou o anel em cima dele. 

Desviando das garrafas vazias no chão, foi embora, levando consigo  meu sol  e me deixando mais uma vez perdido.